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No Ritmo do Coração: Um Retrato Sensível da Cultura Surda e dos Laços Familiares

Atualizado: 17 de mai. de 2025

Filme emociona ao explorar os desafios e afetos de uma jovem entre o mundo ouvinte e a cultura surda

Foto: reprodução / Prime Vídeo
Foto: reprodução / Prime Vídeo

Vencedor de três estatuetas no Oscar de 2022, CODA – No Ritmo do Coração, (2021) é um filme sensível e envolvente que explora os desafios e a beleza da convivência em uma família surda. Ambientado na cidade pesqueira de Gloucester, nos Estados Unidos, o longa acompanha Ruby (Emilia Jones), a única ouvinte em uma família surda, que divide seu tempo entre ajudar os pais e o irmão no trabalho e seu amor pela música. O título CODA faz referência à sigla em inglês Child of Deaf Adults ("Filho de Adultos Surdos"), termo usado para descrever pessoas ouvintes que têm um ou ambos os pais surdos.


Assista o trailer do filme:



O Dilema de Ruby: Entre a Voz e o Silêncio


Ruby passa os dias trabalhando como pescadora ao lado do pai, Frank (Troy Kotsur), e do irmão mais velho, Leo (Daniel Durant), enquanto estuda no último ano do ensino médio. Junto com a matriarca Jackie (Marlee Matlin), eles formam uma família feliz, ainda que um tanto deslocada da comunidade e considerada excêntrica.


No longa-metragem, acompanhamos os dilemas da adolescente. Na escola, ela é vista como estranha, até que se junta ao coral, onde acaba se envolvendo romanticamente com um de seus colegas e começa a fazer amizades. Com o tempo, percebe que tem uma grande paixão por cantar e seu professor Mr. V. (Eugenio Derbez) a encoraja a tentar entrar em uma faculdade de música, já que sua voz é incrível. Enquanto isso, sua família luta para pagar as contas com o negócio da pesca, pois novas taxas e sanções são impostas pelo conselho local.


A jovem, então, treina para ser aceita na Berklee College of Music, onde poderá seguir com o canto, mas se vê diante de uma decisão dolorosa: continuar ajudando sua família como intérprete ou ir atrás de seus sonhos?


Representatividade Surda e Quebra de Estereótipos


Com roteiro e direção de Siân Heder, CODA – No Ritmo do Coração se destaca pela sensibilidade e pelo equilíbrio entre drama, comédia e musical. O filme evita retratar personagens surdos como meros coadjuvantes ou figuras dependentes. Pelo contrário, eles são apresentados como indivíduos complexos, cheios de personalidade, humor e desafios próprios. A relação entre Ruby e sua família é construída com humanidade, fugindo de estereótipos e trazendo uma representação genuína da cultura surda.


Um dos grandes acertos do longa é a escolha do elenco. Os atores que interpretam a família de Ruby são surdos, um avanço significativo no contexto hollywoodiano, onde a representatividade de pessoas com deficiência ainda é limitada. Esse aspecto reforça a importância de que personagens surdos sejam interpretados por atores surdos, garantindo maior autenticidade e visibilidade para essa comunidade. Marlee Matlin, que dá vida à mãe de Ruby, foi a primeira e, até hoje, única atriz surda a ganhar o Oscar de Melhor Atriz, pelo filme Filhos do Silêncio (1986). Já Troy Kotsur fez história ao se tornar o primeiro ator surdo a vencer o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2022.


O Poder do Silêncio na Narrativa


Grande parte dos diálogos do filme acontece em ASL (American Sign Language), a Língua de Sinais Americana. No entanto, essa escolha não compromete a experiência do espectador, já que as legendas traduzem o que está sendo sinalizado.


O grande ponto alto da obra é a cena do recital de Ruby, quando sua família vai assisti-la cantar na escola. No momento em que ela entoa You're All I Need to Get By, o filme mergulha na perspectiva da família surda, desligando completamente o áudio por cerca de um minuto. Esse recurso narrativo não apenas cativa a atenção do público, mas também reforça a mensagem central do filme sobre comunicação, pertencimento e inclusão.



Remake e Impacto Cultural


CODA é a adaptação hollywoodiana de um filme francês chamado A Família Bélier (2014), dirigido por Éric Lartigau. A grande diferença é que a versão americana realmente usa atores surdos para interpretar os personagens, trazendo uma experiência mais honesta para as telas — um aspecto que, sem dúvida, influenciou positivamente o desenvolvimento do longa.


Prêmios e Reconhecimento


Em 2022, o filme CODA conquistou um feito histórico ao vencer três das principais categorias do Oscar, destacando-se tanto pelo mérito artístico quanto por seu impacto social. A obra foi laureada com o prêmio de Melhor Filme, consolidando-se como a produção mais destacada daquele ano segundo a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.


Outro destaque foi o ator Troy Kotsur, que venceu na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Com essa conquista, Kotsur tornou-se o primeiro homem surdo a ganhar um Oscar de atuação, e apenas o segundo intérprete surdo da história a ser reconhecido pela Academia.

Foto: reprodução/ g1
Foto: reprodução/ g1

Além disso, o filme levou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, premiando a roteirista e diretora Siân Heder pela adaptação do roteiro original francês (A Família Bélier, 2014). 


Antes de brilhar no Oscar, CODA também teve destaque no circuito do cinema independente, especialmente no Gotham Awards 2021, uma premiação dedicada a reconhecer produções independentes de excelência. O filme foi celebrado por suas interpretações marcantes e pela sensibilidade ao abordar temas como inclusão e família.

Foto: reprodução/ Just Jared
Foto: reprodução/ Just Jared

O ator Troy Kotsur recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, reforçando o impacto de sua atuação como o pai surdo de Ruby, a protagonista da história. Sua performance cativou críticos e jurados, antecipando a aclamação que o acompanharia até o Oscar.


A veterana Marlee Matlin, que também integra o elenco, foi indicada à categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, o que reafirmou a força do conjunto de atores surdos que deram vida aos personagens com autenticidade e emoção.


Já a jovem atriz Emilia Jones, que interpreta Ruby, foi reconhecida como Melhor Revelação pela sua entrega ao papel, que exigiu não apenas habilidade dramática, mas também o domínio da Língua de Sinais Americana (ASL), além de canto e atuação musical. 


Conclusão: Amor, Conexão e a Força dos Laços Familiares


No fim, CODA é um filme sobre amor em suas mais puras formas: o amor que desafia barreiras, que resiste ao tempo e que encontra formas de se expressar. É sobre conexão, sobre a coragem de ser ouvido e de ouvir. A história de Ruby e sua família não é apenas um drama sobre deficiência, mas uma ode à comunicação autêntica entre aqueles que se amam. No fim das contas, a verdadeira música do filme não está nas canções interpretadas por Ruby, mas na melodia silenciosa do amor incondicional que sua família compartilha.


Nota: 🌻🌻🌻🌻🌻 (5/5)

 
 
 

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Silêncio dos Girassóis: histórias que os números não contam sobre a surdez. Trabalho de Conclusão de Curso de Laís Queiroz | Jornalismo — PUC Goiás © 2025  Todos os direitos reservados.

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