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Maternidade Plural

a história de Marina e Dante: da descoberta da surdez à construção de uma maternidade repleta de afeto, escuta e transformação

A cada amanhecer, Dante transforma o escuro do quarto em luz, anunciando sua presença de maneira peculiar: acendendo e apagando o interruptor. Com apenas três anos, descobriu essa forma de comunicar: "estou aqui, mamãe". O gesto, à primeira vista inusitado, encaixa-se perfeitamente no ambiente familiar, pois é assim que Marina Holanda, sua mãe, desperta. Esse hábito cheio de significado marca o início de um novo dia.

Depois de acordá-la, Dante é recebido por Marina com abraços e carinhos, em um ritual de afeto que proporciona leveza à rotina. Logo depois, ele sobe na cadeira da cozinha e observa atentamente a mãe preparar seu café da manhã favorito: panquecas de banana. Após o café da manhã, o dia ganha ritmo e a rotina se impõe: banho, uniforme, mochila e a despedida na porta da escola. No fim da tarde, às 16h30, Marina o busca. "Ele vem com o sorriso mais lindo do mundo", conta, emocionada, ao descrever os reencontros.

Vídeo: Larissa Morena

Durante o surto da pandemia de Covid-19, em meio a medos e incertezas, Marina descobriu que estava grávida. Jornalista e assessora de projetos culturais em Fortaleza (CE), mergulhou no trabalho remoto enquanto vivenciava as mudanças impostas pela pandemia e pela nova etapa que passaria a exercer: a de mãe.

A gravidez, inesperada, mas rapidamente acolhida com desejo , foi um período de transformação. Apesar das adversidades externas, a gestação e o parto transcorreram de forma saudável. Ainda na maternidade, o teste da orelhinha de Dante apresentou uma alteração. Sem um resultado conclusivo, a família tentou refazer o exame mais duas vezes — uma quando ele tinha poucas semanas e outra com um mês de vida. Porém, as tentativas foram frustradas, pois Dante sentia muito desconforto ao realizar os exames iniciais. Na época, ninguém sabia, mas a sensibilidade ao contato excessivo nos ouvidos era um indicador de autismo que só mais tarde seria diagnosticado.

Fotos: Marina Holanda
Fotos: Marina Holanda
Fotos: Marina Holanda

​​Pensando no bem-estar do filho ainda recém-nascido e no desgaste inicial do processo, Marina decidiu adiar o exame BERA, respeitando o tempo de Dante para que ele pudesse manifestar  naturalmente, seus sinais de resposta auditiva.

Esse período de pausa se estendeu até ele completar um ano e sete meses, quando surgiu a necessidade de que frequentasse a creche para que mãe e pai pudessem trabalhar. Foi nesse momento que o exame foi realizado, e o diagnóstico veio sem margem para dúvidas: surdez profunda severa bilateral. Dante não ouvia absolutamente nada, e o aparelho auditivo não surtiria qualquer efeito.

A maternidade, em sua essência singular, não traz consigo um manual de instruções. Diferente de um eletrodoméstico com regras precisas, a vida não segue roteiro. Quando o diagnóstico do filho chegou às mãos de Marina, não era apenas um conjunto de palavras técnicas ou laudos médicos — era um turbilhão de sentimentos inesperados. O luto, afinal, não se restringe à despedida de quem parte. Ele se infiltra nas mudanças abruptas, nos sonhos que precisam ser ressignificados e nos medos que antes não existiam.

Marina sentiu a culpa pesando nos ombros, a insegurança soprando incertezas e o medo apertando o peito. Mas, antes de seguir em frente, recolheu-se em sua dor, porque sabia que, para aprender a caminhar novamente, era preciso primeiro se refazer.

​​Depois de entender que o diagnóstico não era uma sentença, mas um ponto de partida, Marina encontrou um alento para seu coração inquieto, um coração que pulsava entre o amor incondicional e um mar de incertezas. As informações desencontradas, as dúvidas que não cessavam, a sensação de estar sempre tentando traduzir o mundo em novas linguagens. Tudo isso a acompanhava. Mas, em vez de se paralisar, decidiu transformar cada descoberta em um novo caminho.

Fotos: Marina Holanda
Fotos: Marina Holanda
Fotos: Marina Holanda

Vídeo: Larissa Morena

No início, quase sem perceber, começou a produzir conteúdo. Não era um projeto, não havia planos grandiosos; era apenas a necessidade urgente de compartilhar com a família o que aprendia sobre a vida e sobre o filho. Criou um grupo no WhatsApp, onde registrava percepções, pequenos diários de sua rotina. Logo, percebeu que esses conteúdos não deveriam pertencer apenas aos seus parentes.

Marina hesitou antes de tornar pública sua história no Instagram. Tinha receio de ocupar um espaço que não era seu, de ser vista como alguém que falava sobre uma vivência que não experimentava na própria pele. Mas então se perguntou: quantos adultos surdos não cresceram sem o acolhimento de suas mães? Quantas histórias poderiam ter sido diferentes se houvesse um caminho mais acessível entre elas? Essa reflexão a impulsionou.

Foi quando sua companheira, cinegrafista, entrou na jornada. Trouxe não só equipamentos e técnica, mas um novo olhar e apoio. As madrugadas, antes cheias de inquietação, passaram a ser ocupadas por trabalho: era preciso condensar o conteúdo produzido em vídeos curtos, que coubesse na palma da mão de quem precisava.

No meio desse processo de contar histórias, Marina encontrou ainda mais motivação. No trabalho, um estagiário de design passou a integrar a equipe, e saber Libras fez com que Marina se tornasse uma peça essencial no ambiente profissional. Pela primeira vez, ela percebeu que seu papel não era apenas registrar sua evolução, mas construir pontes.

Surdez no Brasil

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), conduzida em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil abriga mais de 17,3 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência. Dentre elas, estima-se que mais de 2,7 milhões possuem surdez profunda ou severa, o que representa aproximadamente 5% da população brasileira. Esses números vão além das estatísticas; refletem histórias reais, como as de Marina, Dante e tantas outras famílias que enfrentam os desafios da deficiência auditiva.

Mapa do Brasil na cor azul com o simbolo da surdez no centro

A médica otorrinolaringologista pediátrica Mayara Moreira explica a importância do exame: “o teste da orelhinha deve ser feito em todas as crianças, independentemente da presença de fatores de risco para perda auditiva. Isso porque o diagnóstico precoce é essencial para garantir uma intervenção dentro do período adequado. A legislação surgiu para evitar que crianças com surdez passassem despercebidas e só fossem diagnosticadas tardiamente, quando as oportunidades para tratamentos precoces já estariam comprometidas”, diz.

Entretanto, a especialista esclarece que o teste da orelhinha é apenas uma triagem auditiva inicial. “Se a criança não apresenta fatores de risco para surdez e passa no teste, continuamos o acompanhamento com base nos marcos de desenvolvimento da audição e da linguagem. Esses marcos nos ajudam a perceber se a criança está escutando bem”, explica a médica.

​Quais são os marcos de desenvolvimento da linguagem?

Os marcos de desenvolvimento são indicadores que avaliam se a criança responde adequadamente aos estímulos sonoros. Segundo a Dra. Mayara, alguns sinais importantes são:

🌻A criança se assusta com barulhos ou sons intensos?

🌻Ela sorri ou reage quando chamam sua atenção?

🌻Quando você fala o nome dela, ela vira a cabeça ou procura a origem do som?

Esses comportamentos demonstram que a audição e o processamento auditivo estão se desenvolvendo conforme o esperado. 

E se o teste da orelhinha estiver alterado?

"Se o resultado for alterado, são necessários exames complementares para confirmar o diagnóstico. Por outro lado, um teste normal não descarta completamente a possibilidade de perda auditiva futura, pois algumas deficiências podem ser adquiridas ao longo do tempo devido a infecções, traumas ou outras condições. Por isso, o acompanhamento contínuo é essencial”, reforça.

Surdez x perda auditiva: qual a diferença?

​​A Dra. Mayara esclarece a diferença entre os termos:

"O termo 'surdez' é frequentemente usado como um sinônimo genérico para qualquer tipo de dificuldade auditiva, mas, na medicina, ele costuma ser mais específico. Quando falamos em surdez, geralmente nos referimos a casos de perda auditiva severa ou profunda, em que a pessoa não consegue ouvir praticamente nada. Já a expressão 'perda auditiva' é mais abrangente, porque engloba diferentes graus de comprometimento – desde uma leve dificuldade para escutar sons mais baixos até a ausência total de audição.”

Ela detalha ainda a classificação dos diferentes níveis: “Existem perdas auditivas leves, moderadas, severas e profundas, além de variações como a unilateral (quando afeta apenas um ouvido) e a bilateral (quando atinge ambos). Por isso, prefiro usar 'perda auditiva' no diagnóstico, pois permite uma descrição mais precisa da condição do paciente, evitando generalizações.” A explicação reforça a necessidade de um olhar individualizado para cada paciente, considerando as particularidades de cada nível de perda auditiva.

Fatores de risco e exames complementares

Alguns fatores de risco podem aumentar a chance de uma pessoa desenvolver surdez, como infecções durante a gestação, nascimento prematuro, histórico familiar de perda auditiva, uso de medicamentos ototóxicos e infecções no ouvido. Para identificar possíveis problemas auditivos, existem exames complementares, como o teste da orelhinha e audiometria, por exemplo, que ajudam no diagnóstico precoce e no encaminhamento para o tratamento adequado.

Vídeo com áudio e legenda

Vídeo em Libras

E embora a luta de Marina e Dante ainda esteja no começo, a maternidade não é um caminho com linha de chegada — é um horizonte que se move a cada passo, onde as certezas de hoje podem se refazer amanhã. Marina aprendeu que não há roteiro pronto, apenas a coragem de seguir em frente, mesmo sem enxergar o próximo capítulo.​

Versão em áudio

Versão em Libras

Marina HolandaMaternidade Plural
00:00 / 02:32

Marina não tem grandes fortunas para deixar ao filho, mas algumas heranças são imensuráveis. Dante crescerá cercado de amor, de fé, de resiliência — valores que não se acumulam, mas se multiplicam. E, no fundo, talvez Dante seja o grande mestre dessa história. Com apenas três anos, já ensinou à mãe que ser melhor para ele é também ser melhor para o mundo, porque algumas histórias não começam com certezas, mas com amor suficiente para desbravar o desconhecido. E essa, sem dúvida, ainda tem muitas páginas a serem escritas.

Vídeo: Larissa Morena

Nascer, lutar e pertencer

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Silêncio dos Girassóis: histórias que os números não contam sobre a surdez. Trabalho de Conclusão de Curso de Laís Queiroz | Jornalismo — PUC Goiás © 2025  Todos os direitos reservados.

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