O Passarinho

escritor transforma literatura infantil em acessibilidade por meio da Libras

Ilustração do Filipe Macedo / Arquivo Pessoal
Um pequeno visitante pousou em minha janela virtual enquanto rolava o feed do instagram. Com penas leves como páginas de um livro e olhos brilhantes cheios de histórias, ele trazia consigo um mistério. Não cantava como os outros pássaros. Em vez disso, suas asas desenhavam palavras no ar, contando segredos que só quem observa com o coração pode entender. Esse passarinho não apenas narra histórias, ele as escreve, as ensina e as traduz para um mundo onde a imaginação ganha forma através das mãos. Seu nome? Filipe Macedo. Autor de cinco livros infantis:
Pedra (2020); Meu reino por um troninho (2021); Adeus prô (2023); Família da Libras (2024) e Quando as mãos podem falar (2024).
Filipe transforma a literatura em acessibilidade, levando encantamento para todas as crianças — Ele faz das suas mãos boca, para que seus olhos possam ouvir.
Lais Queiroz: Antes de tudo, quero que você se apresente e conte um pouco mais da sua relação com livros.
Felipe Macedo: Oi, Laís! Meu nome é Filipe Macedo, mas também sou conhecido pelo apelido Passarinho – que se tornou quase um pseudônimo. Venho de uma família simples da periferia de Osasco, SP. Na infância, o acesso à literatura era limitado pelas condições sociais da minha família. Aos 11 anos, uma professora de português, o nome dela é Roseli, me apresentou à obra de Pedro Bandeira, e um novo mundo se abriu. Hoje, sou educador social, professor de Libras, contador de histórias e escritor, com cinco livros publicados e mais três a caminho em 2025. Essa realização me permite dizer que estou "voando" muito além do que imaginei.
Lais Queiroz: Como e quando surge “O Passarinho”?
Felipe Macedo: Quando os desafios da adolescência se apresentaram, a literatura tornou-se meu refúgio e, por meio dela, encontrei uma forma de expressão através da escrita.
No ano de 2003, vivenciei a perda da minha avó materna, uma das minhas queridas Marias. Em um sonho marcante, ela questionou a existência da morte e, de alguma forma especial, voamos juntos. Inspirado por essa experiência, através desse reencontro, comecei a publicar meus textos no blog que intitulei "O menino passarinho com vontade de voar”, então surge o apelido Passarinho, que me conecta com a infância e com o meu trabalho atual: contar histórias e pesquisar as diversas realidades das crianças.
Lais Queiroz: Você também é professor de Libras?
O Passarinho: Sim, também ensino e amo a Libras. Faz bastante tempo que eu aprendi, tenho treinado e me envolvido cada vez mais com a comunidade surda. Então, para mim é uma alegria poder ensinar Libras. Eu sou uma pessoa com deficiência auditiva, eu tenho perda bilateral - Do ouvido direito, eu perdi toda a minha audição, já do ouvido esquerdo, eu tenho 50% de audição. Isso me fez ser uma pessoa melhor na questão da escuta, de prestar atenção e perceber o mundo ao meu redor.
Lais Queiroz: Você tinha algum contato com a comunidade surda antes de aprender libras?
O Passarinho: Não. Eu comecei a aprender libras assim que concluí a minha primeira formação em artes dramáticas. O meu sonho e objetivo era formar um grupo de teatro que montasse clássicos do teatro da dramaturgia em Libras. Esse sonho ficou um pouco na gaveta. Eu descobri a minha perda auditiva, porque eu trabalhava numa central de telemarketing e eu não fui aprovado para continuar na função. No início, antes de fazer os exames que levantaram a minha deficiência auditiva do ouvido direito. Hoje eu faço uma investigação sobre o porquê eu perdi a audição do ouvido esquerdo e se essa perda está sendo progressiva.
Lais Queiroz: Como e quando a Libras entrou na sua vida?
O Passarinho: Ah, uma pergunta completando a outra. Foi justamente nesse período, 2006, quando eu me formei em artes dramáticas e tinha esse objetivo de formar uma companhia surda de teatro. Inclusive eu comecei a ensinar as pessoas da minha própria turma de teatro, vários amigos começaram a aprender libras comigo, porque a gente tinha esse intuito de fazer com que a Libras, os espetáculos fossem inclusivos. Mas não no sentido de colocar o intérprete, mas que o espetáculo todo fosse em Libras. Assim começou a minha jornada com a língua e depois que eu descobri a deficiência auditiva, eu percebi que são coisas de Deus, que faz com que a gente se encontre enquanto ser humano dentro dessa jornada linda.Hoje eu sou muito, muito grato por todo o acolhimento da comunidade, por tudo o que eu tenho aprendido com todos da comunidade surda.
Lais Queiroz: O que te atraiu para começar a escrever para o público infantil?
O Passarinho: O meu trabalho como educador social, encontrei na infância o lugar perfeito para incentivar sonhos, buscar e reconhecer a nossa própria identidade e o prazer de brincar. Acredito que com essa tríade conseguimos desenvolver o ser humano de forma mais plena, preparando-o para os desafios que a vida apresentará em todos os contextos sociais, emocionais, cognitivos e artísticos.

Ilustração do Livro: Família da Libras
Laís Queiroz: Como é o seu processo criativo para criar os personagens e histórias que cativem as crianças?
O Passarinho: Trabalho o tempo todo com a escuta (atenção) e, principalmente, com a presença. Nas brincadeiras, ouvindo uma história, interagindo com as crianças, elas demonstram seus sentimentos, vontades e angústias. Nessa escuta, muitas histórias estão surgindo; cada obra tem um processo único, mas gosto muito de pesquisar sobre as temáticas, construir pontes entre a realidade e a fantasia para que meus livros conectem o leitor e a empatia floresça de forma orgânica.
Laís Queiroz. Como surgiu a ideia das ilustrações dos livros com os sinais em Libras? Você participa do processo de criação das imagens?
O Passarinho: Sim, o tempo todo! Como as ilustradoras estavam começando a conhecer a Libras, foi imprescindível o acompanhamento de cada composição dos sinais. A proposta imagética foi de cada artista, o que me deixou muito feliz com as obras, onde temos muita diversidade e cor; mas a curadoria com a Libras foi minuciosa e importante para o resultado final.
Laís Queiroz: Você tem como referência na literatura infantil Manoel de Barros. Por que você sente afinidade com o poeta?
O Passarinho: Pela simplicidade e alma que nosso poeta colocou em cada palavra, eu me conecto com a infância do Manoel de Barros, enxergo e fomento, para as infâncias, exatamente esse espírito brincante, leve e contemplativo que encontramos em toda sua obra.
Laís Queiroz: Que outros autores ou livros você indicaria para outras crianças, além dos seus, claro?
O Passarinho: Muitas obras, mas, para ser sucinto, destaco: "Poeminha em língua de brincar", de Manoel de Barros; "Meu pé de laranja lima", de José Mauro de Vasconcelos; "Ou isto ou aquilo", de Cecília Meireles; e as obras mais contemporâneas de Ricardo Azevedo, Ana Carolina Lemos, Donaldo Buchweitz, Jonas Ribeiro, Paloma Blanca e Iara Mastine, são tantas.
Laís Queiroz: Quais são os maiores desafios de escrever para o público infantil?
O Passarinho: As editoras acreditarem no impacto que a obra terá para as infâncias, trabalharem nas temáticas mais sensíveis e que, de certa forma, se tornam “tabus” para os pais, que automaticamente desejam blindar os filhos de conversas necessárias, e também a distribuição, acredito que é um privilégio quando nossos livros chegam a lugares remotos onde a relevância é gigante, mas o acesso é desafiador e, infelizmente, muitas vezes esquecido.
Laís Queiroz: Houve algum livro que foi mais difícil de escrever?
O Passarinho: Não, cada um teve seu processo natural de pesquisa, maturação e ajustes. Acredito que o mais desafiador foi o espaço para publicação do primeiro; os demais aconteceram cada um do seu jeito e estão chegando às pessoas.
Laís Queiroz: Quando foi a primeira vez que você percebeu que suas palavras poderiam tocar o coração de uma criança?
O Passarinho: Contando histórias, quando uma menina percebeu que havia agido de forma negativa com outro coleguinha da turma e se reconheceu na história, foi bonito ver ela percebendo e mudando de postura depois. As palavras são mágicas, quando sabemos escolhê-las e usá-las de maneira consciente.

Ilustração do Livro: Família da Libras
Laís Queiroz: Poderia compartilhar alguma história marcante de um retorno positivo por conta dos seus livros?
O Passarinho: Sim, o dia em que encontrei uma leitora, menina surda, se reconhecendo no livro, achando bonito o desenho que, pelo seu prisma, “era ela dentro do livro” e repetindo cada sinal, sempre com sorriso no rosto, emocionada ao olhar um livro que trata da sua própria língua. Foi inesquecível
.Laís Queiroz: Se tivesse a oportunidade de encontrar um dos seus personagens na vida real, quem escolheria para tomar um cafezinho?
O Passarinho: Todas elas, as personagens dos meus livros, existem na vida real; algumas histórias são recontadas como forma de ressignificar momentos difíceis ou que poderiam ter sido diferentes na jornada de cada uma delas. Mas, para escolher alguém diferente, encontraria cada criança e adulto ilustrado no livro "Família da Libras".

Família da Libras
Você sabia que existem famílias diferentes e todas são muito importantes? Neste livro, vamos aprender com o escritor Filipe Macedo, o Passarinho, como podemos nos comunicar por meio das mãos. Aqui, você vai encontrar vários sinais na Língua Brasileira de Sinais (Libras) para aprender a se comunicar, brincar e ajudar o nosso país a ser um lugar mais inclusivo para todos. História acessível em Libras.
Saiba mais em: Grupo Ciranda Cultural
Laís Queiroz: Tem algum livro que você, toda vez que pega para reler, ainda se emociona?
O Passarinho: Sim, "Meu Pé de Laranja Lima" de José Mauro de Vasconcelos e "O Pequeno Príncipe" de Antoine de Saint-Exupéry.
Laís Queiroz: Escrever para as crianças te ensinou algo sobre o que é ser adulto?
O Passarinho: Elas me ensinam todos os dias, principalmente a ser mais empático, verdadeiro com meus próprios sentimentos e quereres, mas, sobretudo, a não deixar de brincar e acreditar nos meus sonhos.
Laís Queiroz: Se você pudesse acompanhar em silêncio uma criança lendo um de seus livros, o que gostaria de ver refletido nos olhos dela?
O Passarinho: A alegria, fazer uma criança sorrir é divino, é sagrado

Ilustração do Livro: Família da Libras
Laís Queiroz: Você tem alguma doce lembrança da sua infância que gostaria que cada criança pudesse viver?
O Passarinho: O prazer de brincar sem me preocupar com nada, a leveza de acreditar nas coisas e ter uma avó carinhosa sempre por perto.
Laís Queiroz: Qual seria o maior presente que a literatura infantil poderia te devolver?
O Passarinho: Um mundo mais seguro, divertido e equitativo para todas as infâncias.

E para fechar a entrevista, O Passarinho, compartilha um vídeo que destaca a relevância de seu trabalho sobre acessibilidade e respeito às infâncias.

