
Surdez como potência:
Francielle Cantarelli Martins e a construção de uma educação acessível
Há histórias que não se contentam em ser apenas vividas — elas precisam ser contadas, decifradas e amplificadas. A de Francielle Cantarelli Martins é uma delas: Doutora em Linguística, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Pelotas, sua trajetória é marcada por uma incansável busca por conhecimento e pelo compromisso com a educação bilíngue para surdos. Mas antes dos títulos e das conquistas acadêmicas, há uma história de resistência, uma travessia que não começou nos corredores da universidade.
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e criada em Morro Redondo, uma cidade pequena onde o horizonte parecia mais próximo do que as possibilidades, Francielle cresceu em um mundo que ainda não sabia como falar com ela. Surda profunda desde a infância, sua trajetória poderia ter sido marcada pelo isolamento, como foi a de outras pessoas de sua família, que nunca tiveram acesso a língua de sua comunidade, condenadas a gestos truncados e à incompreensão. E, na tentativa de romper padrões familiares, a mãe e tia de Francielle, se uniram, para que juntas tentassem novas possibilidades.
Entre tentativas frustradas de aparelhos auditivos e sessões de fonoaudiologia que tentavam impor a oralidade, surgiu uma fresta de luz: a Língua Brasileira de Sinais. O encontro com a Libras surgiu como possibilidade e instrumento de comunicação. Reconhecer-se surda, e saber que existiam outros surdos mudou tudo em sua vida.
Hoje, além de ser uma referência na área da Linguística e da Educação para surdos, ela também vive a maternidade de maneira intensa. Mãe de Fiorela e Florence, duas meninas surdas, Francielle compreende, na pele e no coração, a importância de um ambiente verdadeiramente bilíngue desde a infância, e reforça que Libras não é um recurso, é um direito.
Nesta entrevista, vamos conhecer mais sobre sua trajetória, sua atuação acadêmica e sua visão sobre os desafios e avanços na educação bilíngue para surdos.
Lais Queiroz: Como foi para você receber o diagnóstico de surdez das meninas?
Francielle Cantarelli Martins: Foi um dia inesquecível! Nunca imaginei que teria filhos surdos. Eu sabia que meu avô Geraldo tinha duas tias surdas e que Fabiano, pai das minhas filhas, também tinha uma irmã e primos surdos. No entanto, nunca havia passado pela minha cabeça a possibilidade de ter filhos surdos.
Quando Fiorella chegou ao mundo, o hospital entrou em contato com a fonoaudióloga e avisou que eu era surda e que meu bebê havia nascido. No mesmo dia, a fonoaudióloga apareceu para realizar o primeiro teste da orelhinha. Fiorella não passou no teste, mas a profissional explicou que o resultado poderia estar incorreto, talvez porque ela tivesse nascido na banheira e ainda houvesse presença de água nos ouvidos. Então, fui orientada a repetir os testes dentro de um mês.
Segui a recomendação e realizei mais ou menos quatro testes, mas Fiorella continuava não passando. Finalmente, fizemos o exame BERA, que confirmou sua surdez. Fiquei imensamente feliz! Sou mãe surda e minha filha também é surda como eu. Foi um momento de pura alegria. Dei um pulo de felicidade!
E com a Florence, eu comecei a questionar se a bebê fosse surda ou ouvinte, porém, não importei se fosse ouvinte, quando fui à obstetrícia, a médica mostrou a preocupação da segunda filha fosse surda, e orientou para fazer um exame no bebê na barriga para identificar se é surda, fiquei surpresa e recusei o pedido dela. Preferia saber quando bebê chegasse ao mundo e fazer o teste BERA como fiz com a Fiorella. Então, Florence fez teste desde os primeiros dias da vida e deu resultado: Surda! Fiquei muito feliz, até fiz uma festa para comemorar!
Lais Queiroz: Como você descreveria a personalidade das suas filhas, Fiorella e Florence?
Francielle Cantarelli Martins: Fiorella e Florence são bem diferentes!Fiorella nasceu muito enérgica, cheia de disposição. Nunca parecia cansada e queria fazer tudo ao mesmo tempo. Sempre foi muito esportiva. Desde pequena, escalava árvores, nadava sozinha, andava de patins e bicicleta sem qualquer ajuda. Sempre foi uma criança agitada, e, por isso, acabou sendo diagnosticada com TDAH. É extremamente hiperativa! Mas isso nunca me incomodou. Pelo contrário, ela é uma menina muito sociável e inteligente, e eu me encanto cada vez mais com sua energia e seu jeito de ser!
Já Florence nasceu completamente diferente: muito sonolenta e calma. No início, até fiquei preocupada com tanta tranquilidade, pois eu estava acostumada com o ritmo acelerado da Fiorella. Florence é uma menina tímida e nunca demonstrou interesse por esportes. Demorou bastante para aceitar entrar na piscina e só começou a se sentir confortável com a ideia depois dos 3 anos e meio. Também não gosta de andar de patins ou bicicleta. No entanto, tem um grande amor por leitura, adora gibis, brincar com Legos e assistir a desenhos animados. É uma menina extremamente inteligente e dedicada! E, assim como com Fiorella, eu me encanto cada dia mais com a Florence!


Laís Queiroz: Quais são os maiores desafios e alegrias de ser mãe de crianças surdas?
Francielle Cantarelli: Como as minhas pequenas são surdas, todos os dias enfrentam muitos desafios na sociedade. Ainda há diversas barreiras para serem quebradas, mas eu sempre faço questão de mostrar a elas a importância da luta. Quero que entendam que precisamos mostrar à sociedade que somos surdos e tão humanos quanto os ouvintes. Sempre reforço essa ideia de forma positiva. Digo a elas: "Pena que eles não sabem Libras! Vocês são inteligentes porque sabem Libras!" Essa é uma estratégia para fortalecer o orgulho delas em serem surdas e incentivar a luta pelos direitos da comunidade surda. Essa é também a minha luta diária.
Por exemplo, atualmente as meninas fazem aulas de taekwondo. Hoje há intérpretes, mas, no primeiro ano, não havia acessibilidade, e eu tive que batalhar pelo direito delas. Agora, nesta semana, elas começarão aulas de escalada esportiva, e já estou trabalhando para garantir intérpretes durante as atividades.
É um desafio constante, mas a luta nunca termina. O que me traz grande alegria é ver o crescimento delas, perceber que estão se desenvolvendo e enfrentando a sociedade com consciência dos próprios direitos. Já conseguem identificar quando um local não tem acessibilidade e, por conta própria, reclamam e exigem mudanças. Essa força e autonomia delas me enchem de orgulho!
Laís Queiroz: Vocês utilizam o cordão de girassol em lugares públicos? O que acha do uso desse acessório?
Francielle Cantarelli: Sim, usamos. Principalmente em aeroportos, pois, às vezes, eles mudam o número do portão e avisam pelo interfone. Nós não ouvimos o aviso sobre a mudança do número do portão. Além disso, às vezes, eles não atualizam a informação na tela. Por isso, já perdemos alguns voos. Optamos por usar o cordão de girassol para chamar a atenção. Isso ajuda bastante! Também é útil para a minha Florence, que ainda não sabe escrever. Se ela se perder em algum lugar, as pessoas que a encontrarem podem não saber Libras. Como vão se comunicar com ela? Por isso, às vezes é bom ter o cordão para identificar que a Florence é surda e autista.
é um acessório opcional usado para identificar pessoas com deficiências que não são facilmente percebidas, como autismo, surdez, baixa visão, e outras.

Laís Queiroz: Porque escolheu ser professora?
Francielle Cantarelli: Desde pequena, eu sempre quis ser médica. Acredito que não realizei esse sonho por ser surda. Naquela época, não havia o empoderamento surdo que temos hoje para me apoiar na ideia de me tornar médica. Por isso, optei por ser psicóloga, uma área mais próxima da medicina.
Sobre minha carreira como professora, tudo começou quando ingressei na escola inclusiva em Pelotas, aos 14 anos de idade. Lá, percebi que havia uma turma de surdos que estudava o curso normal, o antigo magistério. Vi nisso uma oportunidade para mim e, aos 15 anos, me matriculei no curso normal. Estudei até me formar. Pouco antes da formatura, fiz o curso de instrutor de Libras em Porto Alegre. Eu tinha 17 anos e o curso durou seis meses. Após me formar, comecei a trabalhar nas escolas públicas. Durante esse período, também fiz mestrado em educação e percebi que tinha vocação para ser professora no ensino médio e superior. Decidi continuar meus estudos e, aos 23 anos, fui aprovada em um concurso público para uma universidade pública.
Laís Queiroz: Você atua como professora e pesquisadora no curso de Letras/Libras. Quais são os principais desafios e avanços nessa área?
Francielle Cantarelli: Na UFPel, enfrento vários desafios, principalmente relacionados ao empoderamento surdo e à acessibilidade linguística. Sempre participo de diversos setores, reuniões e conselhos, mas muitas vezes não consigo atender às demandas devido à falta de intérpretes. Essa é uma grande luta que enfrento. Mostro a todos que sou professora e tenho os mesmos direitos que os professores ouvintes para participar das atividades e demandas da universidade.
Procuro sempre trabalhar com qualidade em projetos de pesquisa, extensão e ensino. Esse é o meu papel. Embora existam intérpretes, o número disponível não é suficiente para atender à quantidade de alunos e professores surdos. Gosto muito de produzir artigos e outras produções acadêmicas, mas a falta de intérpretes torna esse processo mais complicado.
Felizmente, alguns professores ouvintes de Libras trabalham bem com os professores surdos, estabelecendo parcerias produtivas. No entanto, infelizmente, ainda há alguns que não apoiam tanto, não sinalizando nas reuniões e palestras relacionadas à educação de surdos.
Eu sempre mostro a importância de empoderar a área de Libras. Essa é a minha luta diária.


Laís Queiroz: Como o currículo escolar pode ser adaptado para garantir uma educação inclusiva e de qualidade para estudantes surdos?
Francielle Cantarelli: Na minha visão, o currículo para a educação de surdos é muito amplo e não tão simples. Primeiramente, é importante entender que a Libras é a língua da comunidade surda. Portanto, o currículo deve incluir o aprendizado de Libras desde os primeiros anos escolares. O português deve ser ensinado como segunda língua, com uma abordagem visual e escrita.
O uso de métodos específicos para o ensino de português para surdos, com foco em leitura e escrita, é essencial para promover o letramento. Os professores que trabalham com alunos surdos precisam ter fluência em Libras, não apenas um conhecimento básico, mas uma fluência completa, para garantir uma instrução adequada em Libras. Por isso, é fundamental investir continuamente na formação dos professores.
Além disso, é necessário ter materiais didáticos adequados e relacionados com a educação bilíngue. Não adianta fazer adaptações que não respeitem a estrutura e a cultura surda. Os materiais didáticos precisam ser criados de forma correta, respeitando essas especificidades.
A estrutura da escola também deve estar alinhada com a cultura surda, incluindo elementos como quadros, corredores, salas de aula, bibliotecas, entre outros, que favoreçam um ambiente de aprendizado adequado para os alunos surdos.
Laís Queiroz: Se pudesse mudar um aspecto da educação de surdos, qual seria?
Francielle Cantarelli: É difícil escolher apenas uma mudança, pois muitas escolas precisam mudar muitas coisas. No entanto, se eu tivesse que escolher uma, seria a ampliação e implementação do ensino bilíngue de forma plena e consistente em todas as escolas que atendem alunos surdos.

Laís Queiroz: Qual a importância da cultura surda para a construção da identidade das crianças surdas?
Francielle Cantarelli: É importante inserir o conceito de cultura surda para as crianças surdas desde pequenas. Isso ajuda para que elas adquiram e construam sua própria cultura surda e aceitem sua identidade surda, promovendo o empoderamento. Ao aceitar a si mesmas, elas se sentirão mais seguras para enfrentar uma sociedade muitas vezes despreparada. Além disso, desenvolverão orgulho de serem surdas.
Laís Queiroz: Como você avalia a formação de professores para o ensino de estudantes surdos? O que ainda precisa ser melhorado?
Francielle Cantarelli: Para mim, é importante separar a escola bilíngue da escola inclusiva.
Se for uma escola bilíngue, os professores precisam estar cientes de que, ao trabalhar com alunos surdos, devem ter fluência em Libras. Não adianta ter apenas um conhecimento básico; é necessário saber bem Libras para ensinar os conteúdos, respeitar a estrutura da língua, e conhecer a cultura e a identidade surda. Eles devem saber quais estratégias e recursos utilizar em sala de aula e nunca omitir conteúdos, alegando que não combinam com a cultura surda. Os alunos surdos têm o direito de aprender os mesmos conteúdos que os alunos ouvintes.
Os professores precisam ter formação na área de educação bilíngue para surdos. Não adianta apenas saber Libras; é necessário saber como ensinar, utilizando estratégias e recursos adequados. Tenho consciência de que não é simples, mas se alguém quer trabalhar em escolas bilíngues, é essencial ter essa formação e respeito.
Em escolas inclusivas, a situação é semelhante. Muitos professores trabalham com intérpretes de Libras, mas mesmo assim, os professores devem organizar materiais didáticos e visuais adequados para os alunos surdos.
Laís Queiroz: Quais são as diferenças entre o ensino de Libras como língua materna e como segunda língua?
Francielle Cantarelli: Há uma diferença entre língua materna e primeira língua. Cerca de 95% dos filhos surdos são de pais ouvintes e chegam à escola sem uma língua estabelecida, ou seja, com aquisição tardia. A escola deve incluir programas para ensinar Libras como primeira língua, para que esses alunos possam aprender a se comunicar e a compreender os conteúdos em sala de aula por meio da Libras.
Por outro lado, os 5% de filhos surdos de pais surdos nascem em famílias surdas e já adquirem Libras em casa. Por isso, quando chegam à escola, já sabem Libras e só precisam aprender os conteúdos. Eles não precisam aprender Libras na escola, mas sim estudar a gramática e a estrutura da Libras na disciplina específica de Libras. Portanto, os programas devem ser diferentes para esses dois grupos.
Laís Queiroz: Como as famílias podem apoiar o aprendizado de crianças surdas desde a infância?
Francielle Cantarelli: É importante que a família esteja presente na vida dos alunos surdos. O apoio familiar é fundamental para incentivar a leitura e a escrita, além de promover a comunicação em Libras em casa. É essencial que os pais acreditem nas capacidades dos seus filhos surdos e tenham esperança no futuro deles.
A luta pelos direitos dos filhos surdos também é crucial. Por exemplo, eu sempre levo minhas crianças para terapias ou aulas de esporte e procuro intérpretes para elas. No entanto, percebo que muitas famílias levam seus filhos para essas atividades, mas esquecem de procurar intérpretes. Isso precisa mudar.
Laís Queiroz: Você acha que a acessibilidade para surdos no Brasil tem avançado nos últimos anos? Em quais áreas ainda há grandes desafios?
Francielle Cantarelli: Sim, a acessibilidade para surdos no Brasil tem avançado nos últimos anos, especialmente em áreas como a educação, a comunicação e o acesso a serviços públicos. No entanto, ainda há muitos desafios significativos a serem superados para que a acessibilidade plena se torne uma realidade.
Por exemplo, agora existem diversas leis e decretos que garantem os direitos das pessoas surdas, principalmente no que diz respeito à acessibilidade linguística. Muitas escolas e universidades têm colocado intérpretes para os alunos surdos. Além disso, muitos funcionários em lugares públicos sabem Libras para atender pessoas surdas.
Porém, ainda há muitas áreas que precisam melhorar. Por exemplo, a justiça e os serviços de saúde ainda não possuem acessibilidade adequada para pessoas surdas. Embora existam leis que obriguem a acessibilidade, elas ainda não são aplicadas de forma eficaz. Isso precisa mudar.
Em eventos culturais, percebo que muitos agora incluem intérpretes, o que é um aspecto positivo. No entanto, até hoje, os cinemas nacionais ainda não possuem legendas e os filmes infantis também não são legendados, o que é uma grande falha.
Outro avanço significativo é a criação da Central de Interpretação e Tradução em Libras, que representa uma grande vitória para a comunidade surda.
Laís Queiroz: O que gostaria que outras mães ou famílias soubessem sobre educar uma criança com deficiência?
Francielle Cantarelli: Quando a família recebe o diagnóstico da surdez dos seus filhos, é uma fase muito delicada. É importante saber que a surdez não é uma doença nem uma deficiência que limita a criança no mundo. É fundamental aceitar a surdez. É importante começar a estudar um pouco sobre o mundo surdo e suas características. Esse é o primeiro passo.
Existem muitas instituições que oferecem serviços para crianças surdas, como escolas, programas precoces, entre outros. O segundo passo é aprender Libras. Quanto mais cedo, melhor, pois Libras permitirá que você se comunique de forma eficaz com seu filho e abrirá portas para seu desenvolvimento linguístico e social. Incentive todos os membros da família a aprender Libras.
Se possível, organize um ambiente acessível em casa e na escola. Isso inclui garantir que a criança tenha acesso visual às informações (como legendas em vídeos) e que os professores e colegas estejam cientes das suas necessidades. Também é importante acompanhar o desenvolvimento das crianças surdas, estudar um pouco sobre educação bilíngue para surdos, alfabetização e letramento das crianças surdas.
Tenha paciência e resiliência, pois a sociedade está despreparada para receber as crianças surdas. Haverá muitos desafios e lutas, mas o mais importante é lutar pelos direitos das crianças surdas. Haverá desafios e momentos difíceis, mas também muitas conquistas. Celebre cada progresso e mantenha-se positivo e resiliente.
Saiba que seu filho tem direitos garantidos por lei, incluindo o direito a uma educação inclusiva e adaptada às suas necessidades. Esteja preparado para defender esses direitos e buscar apoio quando necessário. A comunidade surda tem uma cultura rica e vibrante. Incentive seu filho a se envolver com essa comunidade, pois isso pode proporcionar um senso de identidade e pertencimento importante.






