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Filhos do Silêncio: A Voz da Resistência e da Identidade

Atualizado: 17 de mai. de 2025

O cinema como janela para o universo da comunidade surda na luta por visibilidade


Clássico dos anos 80, Filhos do Silêncio 1986, (Children of a Lesser God), e aclamado pela academia de cinema, o filme traz a narrativa de uma escola para surdos e a jornada de seus personagens pelo reconhecimento de sua identidade linguística e cultural.





Pedagogia de Conflitos


A narrativa começa com a contratação do Professor James Leeds (William Hurt), em uma escola para surdos, trazendo métodos inovadores que para a época, eram ousados. Sua principal aposta é a oralização, incentivando seus alunos a se comunicarem por meio da fala e da música. Leeds acredita que essa abordagem facilitaria a integração dos estudantes na sociedade ouvinte.


No entanto, seu encontro com Sarah (Marlee Matlin), ex-aluna da escola e funcionária da instituição, desafia suas convicções. Sarah é uma mulher surda que rejeita a oralização e se comunica exclusivamente por meio da Língua de Sinais. Sua resistência ao método de Leeds não é um capricho, mas sim uma defesa contra um mundo que constantemente tenta moldá-la à sua própria conveniência.


Sarah não apenas se recusa a falar, mas também rejeita a ideia de que precisa se adequar às expectativas dos ouvintes. O filme expõe com sensibilidade as feridas emocionais da personagem que desde a adolescência foi alvo da crueldade dos amigos de sua irmã e da indiferença dos próprios pais. O desprezo que enfrentou dentro de casa e a brutalidade de algumas experiências deixaram marcas profundas. Esse histórico explica sua relutância em confiar nos outros, especialmente em alguém que, por mais bem-intencionado que seja, tenta impor a ela um modelo de comunicação que não reconhece sua identidade.


Com o tempo, a relação entre Sarah e Leeds toma um rumo mais íntimo e intenso. O que começou como um romance envolvente, cheio de descobertas e cumplicidade, logo se transformou em algo mais complexo. O professor, mesmo apaixonado, acredita que está ajudando Sarah ao insistir que ela fale. A princípio, eram apenas sugestões, ditas com suavidade, mas logo se tornaram pressões constantes, como se a identidade de Sarah estivesse incompleta aos olhos dele. Para ela, que já carregava tantas marcas do passado, essa insistência mais tarde tornaria-se um obstáculo na relação deles. 


Música e dança


Embora Sarah seja surda, a música tem um papel importante na trama. Em um dos momentos mais simbólicos do filme, ela pede que Leeds "mostre a música". Essa cena, que poderia ser conduzida de forma condescendente, é transformada em um instante de pura sensibilidade. Leeds não apenas a faz sentir as vibrações, mas a envolve no ritmo, permitindo que ela experiencie a música de sua própria maneira.


Além disso, a personagem gosta de dançar – uma expressão de liberdade que desafia a percepção de que a música só pode ser apreciada por aqueles que ouvem. Sua dança não é sobre seguir um ritmo externo, mas sobre sentir o próprio corpo e o espaço ao seu redor. Essa metáfora se conecta ao tema central do filme: a necessidade de respeitar as diferentes formas de viver e se expressar.


Falta de apoio familiar


Enquanto o enredo se desenvolve, o filme também expõe a frieza da relação entre Sarah e sua mãe, um reflexo de uma sociedade que, por décadas, negou aos surdos o direito de se expressarem por meio da Língua de Sinais. O distanciamento emocional entre ambas é um retrato da falta de compreensão e da imposição de paradigmas ouvintistas sobre aqueles que se comunicam de outra forma.


Preconceito dentro e fora da escola


Outro ponto marcante é o olhar do diretor da escola, que trata seus alunos com certa indiferença. Sua visão limitadora fica evidente quando ele afirma: "But no one is trying to change the world here... just trying to help some deaf children... everything else is just dazzlement.” Traduzidos para o português: “Mas ninguém está querendo mudar o mundo por aqui... apenas tentando ajudar algumas crianças surdas... todo o resto é deslumbramento.” 


A cena do restaurante, onde Sarah sofre discriminação pela postura do garçom, reforça como o preconceito se manifesta em diferentes esferas da sociedade.


Comunicação não-verbal do filme


A comunicação não verbal é um dos aspectos mais brilhantes do filme. Os olhares trocados entre Sarah e Leeds carregam emoções que vão além das palavras, e a direção acerta ao permitir que a Língua de Sinais seja protagonista em vários momentos, sem recorrer à oralização forçada. Isso não apenas respeita a experiência da comunidade surda, como também evidencia o valor e a riqueza de sua expressão.


A cena mais impactante do filme ocorre quando Leeds pressiona Sarah para que ela fale. Exausta da insistência em moldá-la a um padrão que não é o seu, ela finalmente explode, grita e se coloca como vulnerável. Esse momento representa não apenas um desabafo individual, mas um grito coletivo de toda uma comunidade que, por décadas, lutou para ser vista e respeitada em sua singularidade.


Acertos do filme


Um dos maiores acertos do filme é a escolha de Marlee Matlin para o papel principal. Marlee Matlin, enquanto atriz, entrega uma atuação tão digna de Oscar que foi reconhecida pela academia por sua performance. Em uma época em que personagens com deficiência eram frequentemente interpretados por atores ouvintes, a presença de Matlin é uma reafirmação da necessidade de ocupar espaços que, historicamente, foram negados às pessoas com deficiência. Sua atuação não apenas garantiu seu Oscar de Melhor Atriz, como também trouxe veracidade e força às discussões sobre representação e acessibilidade no cinema.


A direção de Randa Haines é sensível e respeitosa, permitindo que a narrativa se desenvolva sem cair em exageros melodramáticos ou caricaturas comuns em histórias sobre deficiência. Seu olhar apurado para os detalhes possibilita uma abordagem íntima dos personagens, explorando suas dores, desejos e embates internos de forma crua e autêntica.


O roteiro, adaptado da peça de Mark Medoff, equilibra bem o desenvolvimento dos personagens com discussões sobre oralização, identidade e pertencimento. Não há respostas fáceis, e cada cena reforça a complexidade da relação entre Leeds e Sarah, evitando reducionismos.


A fotografia, por sua vez, trabalha com contrastes sutis de luz e sombra para reforçar o isolamento e a intensidade emocional da protagonista. A maneira como Sarah é frequentemente enquadrada sozinha, com espaços vazios ao seu redor, evidencia sua luta interna e sua resistência ao mundo que tenta moldá-la. Nos momentos de conexão, o enquadramento se estreita, reforçando o vínculo entre os personagens e a força de seus diálogos silenciosos.


Reconhecimento e Legado


A força das atuações garantiu ao filme múltiplas indicações e prêmios. No Oscar de 1987, além da vitória de Matlin, Filhos do Silêncio foi indicado a Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator (William Hurt) e Melhor Atriz Coadjuvante (Piper Laurie). 


No Globo de Ouro, Matlin também levou o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama. 


No Festival de Berlim, o longa recebeu o Urso de Prata de Melhor Direção e foi indicado ao Urso de Ouro.


O impacto do filme transcende as premiações. Filhos do Silêncio abriu espaço para debates sobre inclusão e representação, sendo um dos primeiros a trazer uma protagonista surda interpretada por uma atriz surda. Décadas depois, seu legado ressoa em produções como No Ritmo do Coração (CODA, 2021), que também aborda a vivência surda. 


Conclusão


Filhos do Silêncio é mais do que um filme sobre romance ou educação; é um manifesto sobre identidade, pertencimento e respeito às diferenças. Ele questiona a noção de que a adaptação deve partir da sociedade e não da pessoa com deficiência e levanta reflexões sobre até que ponto o amor pode se tornar opressor quando ignora a individualidade do outro. Ele nos ensina que a verdadeira inclusão não está em moldar o outro às expectativas da maioria, mas em acolher e valorizar sua existência tal como ela é. O filme nos lembra que a verdadeira inclusão não está em ensinar alguém a se encaixar, mas em aceitar e valorizar sua forma única de existir.


Nota: 🌻🌻🌻🌻🌻 (5/5)

 
 
 

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Silêncio dos Girassóis: histórias que os números não contam sobre a surdez. Trabalho de Conclusão de Curso de Laís Queiroz | Jornalismo — PUC Goiás © 2025  Todos os direitos reservados.

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