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O Som da Escola

crônica sobre o Centro Especial Elysio Campos

Girassol

Embora aquele seis de novembro tenha amanhecido sob um céu cinza, como um manto de luto estendido sobre Goiânia, o dia trazia uma calma inesperada. A chuva da noite anterior havia purificado o ar, como se a chuva tivesse feito as pazes com a terra. Era um aconchego contraditório para mim, amante dos dias de sol e do céu azul que parecem não ter fim. Mas naquele momento, o cinza, que sempre me evocava algo sombrio e final, parecia ter mudado de tom, quase como um convite sussurrado. Talvez fosse o aconchego de ver as andorinhas dançando entre os fios e telhados que me fizeram aceitar a melancolia daquela manhã. 

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Enquanto percorria o trajeto até a escola dedicada exclusivamente a alunos surdos ou com deficiência auditiva, eu carregava uma única certeza: o silêncio não é a ausência e nem vazio. E quando cheguei pude confirmar:  não há o barulho comum de risadas como acontece em uma escola de classe comum. Mas há movimento. Olhares atentos que se encontram, mãos que dançam no ar, gestos e expressões faciais que traduzem pensamentos, emoções e histórias. A comunicação ali acontece com uma intensidade quase que palpável.

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Ao chegar na escola, sou recebida pelo coordenador pedagógico, um homem surdo, que está no portão da escola e que recebe a todos com um sorriso típico que demonstra o prazer de estar ali. O "bom dia" que ele sinaliza para me cumprimentar é acolhedor! É impossível não retribuir. Ele está vestido com uma camiseta polo rosa em tom suave, que contrasta com a calça jeans clara e o clássico all star pretos. Sua postura em receber os alunos no portão confirmam cuidado e afeto.

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Rapidamente, busco minha melhor performance de “bom dia” em Libras. A voz fica quieta enquanto minhas mãos trabalham para falar por mim. Depois, apresento-me: faço a datilologia do meu nome, LAIS, e, quase sem respirar, indico o meu sinal. Aproveito para dizer, em sinais ainda hesitantes, que estou ali para conhecer a escola e conversar com as professoras.

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Ele respondeu com gentileza, apresentando-se em seguida. Mostra o sinal que o representa: a letra H em Libras, tocando d e l i c a d a m e n t e  a bochecha. Também me apresenta, com igual cuidado, o sinal da diretora, Alessandra. É como se, naquele momento, ele estivesse me abrindo as portas não só da escola, mas de um universo que precisa ser desvendado. 

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Tudo acontece num instante fugaz. As mãos dele deslizaram com fluidez, enquanto as minhas tropeçaram entre a timidez e a pressa. Quando a conversa termina, sou tomada por um calor incômodo subindo pelo rosto e me lembro que esqueci de perguntar seu nome. Um erro tão bobo. Supus que estava preparada. Mas ali, naquele ambiente que não é o meu cotidiano, o que parecia previsível tornou-se inesperado.

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Por um instante, sinto-me uma intrusa, mas não uma intrusa rejeitada. É como se aquela falta de prática fosse um lembrete gentil de que estar ali não se tratava apenas de saber Libras; mas sim de estar aberta ao ritmo e às nuances de um mundo que se comunica de forma diferente.

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O sobressalto inicial me mantém mais alerta. Respiro fundo e faço um pacto comigo mesma: vou aprender. Não só sobre a escola, mas sobre as pessoas que fazem a escola. Afinal, há algo extraordinário na simplicidade desses instantes, uma troca que começou com um sorriso, se transformou em aprendizado e terminou com a promessa de que, da próxima vez, eu saberei fazer as perguntas certas.

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Ele me pede para esperar, então fico aguardando sentada em um banquinho, de frente para uma grande parede repleta de representações visuais. Enquanto espero, observo o movimento dos alunos entrando na escola e organizando-se nas salas de aula.

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Depois de organizados, uma das turmas foi para a aula de educação física. Ouso dizer que esta é uma das disciplinas e aulas mais aguardadas pelas crianças. Longe de mim dizer que elas não gostam da aula de português ou de ciências, mas as aulas de educação física possuem um charme a parte. Em vez dos jogos e exercícios de sempre, a quadra agora se enche de música e ritmo.

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Aqui preciso abrir um parênteses e dizer que sim, a música em uma escola bilíngue (Libras/Português) é uma possibilidade real, amplamente utilizada pelas professoras e bem aceita pelos alunos. A música e a dança são expressões culturais importantes que independem da audição para serem percebidas. Os alunos que observei no ensaio estavam imersos, empenhados em entregar uma bela atuação para o espetáculo de dança Mãos de Direito - evento que é organizado pela escola, associação de surdos e instituições parceiras.

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Quando a música começa, os ritmos ganham forma: os pés sentem o peso das batidas, o corpo acompanha o ritmo ditado pela professora, e as mãos tocam o ar como se desenhassem a melodia invisível, enquanto panos coloridos incrementam os movimentos.

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Na dança, a música se transforma em movimento, e cada criança pode senti-la na intensidade de sua particularidade: no olhar atento aos passos da professora, na vibração das notas que ressoam no chão e nas palmas ritmadas que guiam os movimentos. A dança neste contexto se mostra inclusiva e aberta. É ainda uma linguagem que todos podem entender e traduzir à sua maneira. Ela é um convite à liberdade, à criatividade, ao prazer de estar em sintonia com o passo executado.

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Tudo se entrelaçava em um espetáculo que não cabia apenas no espaço demarcado pela professora com cones e fitas; ele transbordava para dentro de mim e além. Fechei os olhos por alguns instantes e me revisitei nas aulas de jazz e balé da infância. Uma vontade súbita me invadiu: e se eu me juntasse à roda e entrasse na dança com aquelas crianças? Contive esse desejo, mas, mesmo assim, uma parte de mim, que estava adormecida até então, despertou. Desejei sentir de novo o palco sob os pés, o coração disparando ao ritmo da música e as borboletas no estômago antes de subir no palco do Teatro Goiânia para uma apresentação.

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Enquanto ainda não me decido se volto a praticar esse hobby, permaneço aqui, como uma jornalista que observa, escreve e que se emociona com a beleza de viver a história e narrar a vida em sua singularidade. E o melhor de tudo: sigo trabalhando por aquilo que acredito. Minha motivação é, e sempre será, lutar por uma educação cada vez mais inclusiva, democrática e acessível para todos. Talvez minha visão seja um tanto freiriana, embriagada de sonhos e militância. Continuo acreditando, mesmo quando parece teimosia, que a educação pode transformar vidas e que cada gesto, cada palavra tem um propósito nesse caminho.

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Depois de um ensaio de dança tão animado, a sede bateu forte - as crianças dispararam em direção ao bebedouro como se fosse uma corrida de emergência. A confusão começou já na chegada: uma delas, com a pressa de matar a sede, esqueceu a garrafinha e decidiu beber direto do bico da torneira, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Outra, cheia de critérios, desprezou a água morna e encheu novamente com uma mais gelada – afinal, ninguém merece beber água quente. 

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Enquanto isso, um menino resolveu beber água de maneira aparentemente inocente, mas a expressão marota entregava que vinha bagunça por aí. Dito e feito: ele deixou a torneira aberta, observando pacientemente enquanto a poça d’água se espalhava pelo chão. Quando ela atingiu o tamanho perfeito para suas travessuras, ele correu como se estivesse se preparando para um salto digno de Rebeca Andrade nas Olimpíadas. SPLASH! Molhou-se por completo!

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Os colegas? Não se contiveram e caíram na gargalhada, daquelas que fazem o rosto doer e a barriga pedir trégua. Era impossível resistir à combinação de caos e espetáculo oferecidos pelo menino encharcado, que, para completar o show, ria junto. Afinal, ele acabara de criar, sem roteiro, a obra-prima do dia: um balé aquático digno de aplausos e, claro, umas broncas depois.

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A breve pausa no bebedouro foi muito mais do que uma simples distração. Entre risadas e olhares cúmplices, as crianças construíam algo que nenhum livro é capaz de ensinar: a conexão com o outro e a descoberta de que o aprender também acontece nas pequenas vivências do cotidiano. 

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Ao retornar para a sala de aula, deparei-me com a sutileza do exercício que é o ensinar. As paredes decoradas exibem cartazes com palavras acompanhadas de seus sinais em Libras e da grafia em português, enquanto cada objeto da sala está identificado com plaquinhas que associam nome e função. Tudo ali parece cuidadosamente pensado para transformar a aprendizagem em algo vivo e acessível.

Entre os numerosos instantes que se desdobravam diante dos meus olhos, um, em particular,  gravou-se de maneira indelével: a interação entre as professoras e os alunos. Existe um ritmo que conecta sonhos e aprendizados.  As professoras não apenas ensinam; elas também se transformam ao olhar nos olhos de seus alunos, interpretando sonhos, incertezas, histórias e o peso dos desafios que caminham para longe do ambiente escolar. Os alunos, por sua vez, estampam a curiosidade no olhar: o franzir de uma sobrancelha, a inquietação do corpo, a ansiedade pela sede do conhecimento.

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Aprender algo aparentemente simples, como o número 8 ou verbos do cotidiano como: comer, andar, dirigir, torna-se um processo único na escola de surdos. Nesse contexto, o processo educativo guarda um enigma profundo, talvez um labirinto: o som que não se ouve exige que o aprendizado seja primeiro tecido em silêncio, com associação de gravuras para que depois se tenha a oportunidade de inserir o português. Assim, com sinais que se tornam palavras, as professoras preparam o terreno para que cada letra ganhe vida e sentido em um mundo onde o silêncio também pode contar histórias.

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Embora o caminho seja repleto de desafios, a sala de aula é um espaço de possibilidades infinitas, onde sonhos tomam forma e ideias ganham asas. É ali que o conhecimento se transforma em experiência e o potencial de cada aluno encontra caminhos para se expandir. Entre as paredes desse ambiente, não existem apenas carteiras e quadros: há universos que se abrem, histórias que se cruzam e mentes que se despertam para novas perspectivas. A cada lição, surge a chance de questionar, criar, errar e tentar de novo. É um lugar onde o futuro começa a ser moldado. Embora o caminho seja cheio de desafios, dentro daquela sala de aula, o impossível é apenas uma história esperando para ser contada.

Nota da autora:

Enquanto observava as crianças dançarem, peguei meu caderno e anotei o nome de cada música que tocava. Cada canção parecia costurar sorrisos e passos leves naquele momento tão especial. Inspirada por essa energia, criei uma playlist que reúne todas essas músicas — um pedacinho da alegria que vivi ali.

E se você quiser ir além e sentir o encanto que tomou conta daquele dia, a Fayda, mãe do Marcos Paulo, compartilhou gentilmente algumas imagens do espetáculo, que agora também estão disponíveis para você conhecer.

Todos os vídeos

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Vídeo 02

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01:00
Espetáculo Mãos de Direito

Espetáculo Mãos de Direito

01:16
Vídeo 03

Vídeo 03

00:51

A Sala de Aula

Grande Reportagem

Entre desafios invisíseis, dados alarmantes e a luta pela saúde mental, professoras constroem, todos os dias, uma sala de aula bilíngue possível. ​

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Girassol

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Silêncio dos Girassóis: histórias que os números não contam sobre a surdez. Trabalho de Conclusão de Curso de Laís Queiroz | Jornalismo — PUC Goiás © 2025  Todos os direitos reservados.

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