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Amor para recomeçar

Girassol

uma carta de afeto para mães

Eu não sou mãe, mas sou filha. Filha de uma mulher que precisou se refazer por mim.

 

Minha mãe não teve tempo para o luto. Esse sentimento não lhe foi apresentado. Ela não pôde sentar e lamentar. Era preciso agir, era preciso correr contra o tempo, porque eu, recém-nascida, precisava de reabilitações visuais. Enquanto outras mães embalavam seus filhos sem preocupações, a minha enfrentava os meus choros escandalosos durante os exames e consultas.

Sei que o luto que as mães relataram para mim durante as entrevistas não é o da morte. É um luto invisível, um luto que acontece no momento do diagnóstico, quando o mundo ao redor parece ruir. Você sonhou com um futuro para seu filho e, de repente, esse futuro é apagado, redesenhado por mãos que não são as suas. O chão se abre, o ar falta, e você se pergunta: como será agora? O que será dele? O que será de mim?

Não é apenas sobre surdez ou baixa visão. É sobre todas as deficiências que chegam como um vendaval, que arrancam certezas, que mudam os planos.

É sobre a mãe que esperava ouvir o choro do filho ao nascer e se depara com o silêncio.

 

É sobre a mãe que imaginava os primeiros passos de seu bebê e recebe uma cadeira de rodas.

É sobre a mãe que sonha que o filho veja seu sorriso ou o céu azul num dia de verão, e recebe uma bengala vermelha.

É sobre a mãe que sonhava com a escola, com amigos, com independência, e vê os muros da exclusão se erguerem à sua frente.

E há dor. Há medo. Há revolta. Há culpa. Você se pergunta se fez algo errado, se poderia ter evitado, se há algo que pode consertar. As pessoas tentam consolar, mas muitas vezes falam errado. Dizem: "Deus dá filhos especiais para mães especiais", mas você não se sente especial. Dizem: "Ele vai superar", mas você não sabe se é verdade. Dizem: "Seja forte", mas você só quer desabar.

Mas, há algo além do luto. Há esperança. A esperança não chega de uma vez. Ela vem aos poucos, se infiltra nos pequenos gestos, nos primeiros avanços, na descoberta de que a vida segue, de que há um outro caminho. Não o caminho que você planejou, mas um que ainda assim pode ser bonito. A esperança está no primeiro sorriso, na primeira palavra, no primeiro abraço apertado. Está no olhar que diz "estou aqui", no toque que comunica mais do que qualquer fala. 

Eu escolho esperançar todos os dias. Porque a esperança não é esperar passivamente. Esperança é ação, é insistência, e resistência. É não aceitar os limites que impõem ao seu filho. É desafiar diagnósticos, é buscar terapias, é lutar para que ele tenha acesso, para que tenha direitos, para que tenha voz. A esperança é o amor que te faz levantar, mesmo quando o peso parece insuportável.

E, mãe, viver é um milagre. Não aquele milagre dos filmes, onde tudo se resolve magicamente. O milagre real está no ordinário, no simples, no cotidiano. Está na gargalhada inesperada, na conquista pequena, no dia que termina com a sensação de que valeu a pena. O milagre é entender que a vida não precisa ser perfeita para ser extraordinária.

Minha mãe aprendeu isso. Eu aprendi isso porque minha mãe me ensinou. E você, mãe, também vai aprender - e pode ensinar também. O luto pode estar presente, mas ele não precisa ser eterno. Ele não pode ser morada. Que ele seja um caminho breve, uma travessia para algo maior. 

Se você me permite, deixo aqui um conselho. Não é apenas um conselho, mas um sussurro de coragem que atravessa o tempo - palavras de duas mulheres, mãe e filha, que há 22 anos se agarraram uma à outra quando o mundo era mais escuro e a medicina ainda um campo de incertezas.

Primeiro, lembre-se: ninguém conhece um filho melhor do que a própria mãe. Observe-o. Sinta-o. Não se deixe levar pelo que dizem. Aqueles que nunca carregaram seu peso, que nunca perderam o sono contando estrelas enquanto tentavam encontrar respostas, não devem ditar regras na sua maternidade. O instinto materno não erra.

Faça o que estiver ao seu alcance, agora. Não espere pelo momento perfeito, porque ele não existe. Escolha um caminho mais generoso pelo seu filho — não o mais fácil, não o mais curto, mas o que for guiado pelo amor.

Lute. Lute como quem sabe que amor também é batalha. Lute por ele, pelos direitos dele, pelos sonhos que ainda não têm nome, mas que já existem dentro de seu filho.

E acima de tudo, nunca, jamais, veja-o como menos. Não vitimize sua deficiência, não enxergue sua condição como um fardo. Deficiência não é invalidez. Um filho não é um diagnóstico. Um filho é um universo inteiro que só precisa de espaço para brilhar.

Acredite no potencial. Na força que pulsa dentro dele e dentro de você. Porque o amor de uma mãe não só sustenta, ele transforma.

E se essa carta te fizer chorar rios de lágrimas, que sejam lágrimas de esperança. Porque no fim, é isso que nos salva. E, apesar da dor, do medo e das incertezas, a vida segue. E ela pode ser bela, intensa, e cheia de amor.

Com todo meu carinho,

de Lais, para sua mãe, Maria Sebastiana, ou melhor... Tianinha

e para todas as mães que precisam desse abraço!

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