
Bibliolibras
Biblioteca online promove o acesso às histórias infantis em Libras e áudio para crianças com deficiência,
Era uma vez uma professora inquieta. Seu nome: Sueli Maria Regino, uma carioca que encontrou no cerrado goiano um novo lar. Desde que se mudou para Goiânia em 1986, Sueli dedicou-se à literatura, publicando novelas juvenis e contos infantis que encantaram leitores por todo o Brasil. Em 2009, ao começar a lecionar no Curso de Letras Libras da Universidade Federal de Goiás (UFG), e então se deparou com um desafio que mudaria sua trajetória: como ensinar literatura para alunos surdos que nunca haviam sido apresentados ao mundo da fantasia?
“Eles não sabiam diferenciar realidade de ficção. Nunca tinham ouvido um ‘era uma vez’ ou um ‘felizes para sempre’”, relembra Sueli. Para seus alunos, histórias como a dos Três Porquinhos ou da Chapeuzinho Vermelho não eram metáforas ou contos, mas relatos reais. A ausência do conceito de fantasia na vida dos alunos era mais do que uma lacuna educacional — era a privação de um direito fundamental: o direito de imaginar um faz de conta.
Foi então que Sueli decidiu agir. Nas terças-feiras, antes das aulas, ela começou a reunir os alunos para contar histórias em Libras. Os estudantes, encantados, gravavam as narrativas em seus celulares para compartilhá-las com outros surdos.
A iniciativa chamou a atenção da TV UFG, que no primeiro momento foi até à sala de aula para gravar uma reportagem. Tempo depois, foi criada uma versão televisiva do Hora do Conto. Foi ali, vendo as histórias ganharem vida na tela, que Sueli percebeu o potencial do projeto. “A TV era pouco. Precisávamos de algo que pudesse chegar a mais pessoas”, diz ela. E observando o formato feito pela TV universitária, ela pensou: “Eu tenho que montar os livros assim”, explica Sueli. “Eles precisam ter uma parte em Libras, outra em português escrito, para que o aluno surdo possa fazer essa correspondência, e uma voz ao fundo para crianças cegas e com baixa visão.” - reforça.
BiblioLibras - Um espaço para todos
Nem todos enxergaram a Bibliolibras com os mesmos olhos de esperança que Sueli. Durante a construção do projeto, ela enfrentou resistência de colegas que não entendiam a necessidade de incluir áudio para alunos cegos ou com baixa visão. “Alguns professores diziam: ‘Isso é desnecessário. Já temos Libras, por que complicar?’”, relembra Sueli. “Mas para mim, não era complicar. Era incluir” defende.
Para ela, a biblioteca não poderia ser feita de meias medidas. “Se queremos falar de inclusão, temos que pensar em todos. Não adianta criar um espaço só para surdos e esquecer dos cegos, ou vice-versa. A Bibliolibras precisava ser um lugar onde todos pudessem se encontrar, independentemente de suas limitações.” afirma.
Essa visão ampla e generosa foi o que diferenciou o projeto. Enquanto outros viam barreiras, Sueli via oportunidades. “Eu não queria só um espaço. Queria um lugar onde a literatura fosse uma ponte, não um muro. Onde crianças surdas, cegas, com baixa visão ou ouvintes pudessem compartilhar as mesmas histórias, cada uma à sua maneira” pontua.
Contar histórias não é apenas um passatempo. É uma forma de construir identidades, despertar a imaginação e promover a inclusão. Para crianças surdas, a Bibliolibras representa a oportunidade de mergulhar em um universo que antes lhes era negado. Para crianças cegas e com baixa visão, a narração em áudio abre portas para o mundo da literatura. E para crianças ouvintes, os livros bilíngues são uma ferramenta valiosa para o aprendizado de Libras, promovendo a integração entre surdos e ouvintes no ambiente escolar.
Um Livro que Fala Todas as Línguas
O projeto ganhou vida depois que foi contemplado com recursos por meio de leis de incentivo à cultura. A primeira etapa consistiu na adaptação e revisão dos textos originais, seguida pela gravação dos áudios e das interpretações em Libras. Os vídeos foram então editados, resultando em livros audiovisuais que são obras literárias acessíveis.
O acervo da Bibliolibras começou com 12 contos dos Irmãos Grimm e está em constante expansão. A cada novo livro, mais crianças têm a chance de se encantar com histórias que falam todas as línguas. “O objetivo é possibilitar o acesso à literatura infantil e juvenil para todos, independentemente de suas limitações”, afirma Sueli.
Por que os Irmãos Grimm?
A escolha dos contos dos Irmãos Grimm para inaugurar a Bibliolibras não foi por acaso. “Foi a primeira coisa que eu pensei”, revela Sueli. “Essas histórias nunca foram feitas para crianças. O conceito de infância nem existia na época em que foram criadas. Eram narrativas que uniam adultos, jovens e idosos em torno de uma mesma fogueira, literalmente” exemplifica.Sueli lembra das histórias que sua avó, uma camponesa da Serra da Estrela, em Portugal, contava. “As casas eram de um cômodo só. Todo mundo dormia junto: avós, pais, filhos, netos. E embaixo, no curral, os animais aqueciam a casa com o calor de seus corpos. Era ali, naquele ambiente quase medieval, que as histórias ganhavam vida”, comenta.
Os contos dos Irmãos Grimm, assim como os de outros colecionadores de narrativas populares, como o russo Afanássiev, foram colhidos das “vovós” das aldeias. “Elas eram as guardiãs dessas histórias”, explica Sueli. “Eram narrativas que falavam de violência, assédio, medo e superação. Não eram contos de fadas no sentido moderno, mas relatos cruéis e reais, que refletiam a vida daquela época.” afirma.
Um exemplo é a história de Mil Peles (ou Pele de Asno, na versão francesa), que narra o drama de uma princesa assediada pelo próprio pai. “Quando contei essa história numa das aulas de contação de histórias, vi meninas chorando. Muitas delas haviam passado por situações semelhantes. Os surdos, muitas vezes, são vistos como ‘invisíveis’ dentro de suas próprias famílias, e o abuso é uma triste realidade. Esses contos tocam em feridas profundas, mas também oferecem um caminho para a cura.” detalha.
Um Projeto que Cresce com a Comunidade
A Bibliolibras não se limita aos clássicos. “Meus livros também entraram no acervo”, diz Sueli. “E quero que outros autores se sintam à vontade para apresentar seus trabalhos. Se aprovados pelo conselho editorial, buscamos recursos para produzi-los. Tudo é feito com auxílio público, e cada livro é uma conquista.”
O projeto, que começou com 12 contos, hoje abriga vinte e cinco histórias e continua crescendo. “É um trabalho difícil, mas gratificante. Ver as crianças — surdas, cegas, ouvintes — se encantando com as histórias é a maior recompensa.”
A Bibliolibras não se limita aos contos de fadas e histórias infantis. Durante a pandemia, a professora Sueli percebeu que precisava ir além. “Eu via meus alunos distantes, sem acesso às aulas presenciais, e pensei: ‘Preciso fazer algo para que eles não percam o essencial”, relembra. Foi então que ela começou a gravar suas aulas, criando vídeos e materiais em PDF que pudessem ser acessados por todos, a qualquer momento.
“Eu montava as aulas antes, com cuidado, para que os alunos que não pudessem estar comigo naquele momento ainda tivessem acesso ao conteúdo”, explica Sueli. Os materiais inicialmente criados para suprir uma necessidade emergencial, acabaram se tornando parte permanente do acervo da Bibliolibras. “Fiquei com vários vídeos e pensei: ‘Por que não compartilhar isso?’ Postei para que todos pudessem ter acesso.” completa.
Além dos vídeos, Sueli organizou um livro com resumos de suas aulas, pensando em facilitar o acompanhamento dos alunos. “Eu até pensei em tirar depois, mas as professoras me disseram: ‘Não, deixa como está. É um material valioso", conta ela. Esse acervo acadêmico, que inclui desde aulas gravadas até textos didáticos, transformou a Bibliolibras em uma ferramenta ainda mais completa.
Reconhecimento e Futuro
Sueli Maria Regino, que já foi finalista do Prêmio Kindle de Literatura e recebeu o Diploma de Destaque Cultural do Prêmio Jaburu em 2018 e em 2025, vê na Bibliolibras sua maior realização. “Ah, isso foi tão bom. Eu fiquei muito feliz,” diz ela, emocionada.
O Prêmio Jaburu, uma das mais importantes honrarias culturais do estado de Goiás, foi criado em 2004 com o objetivo de reconhecer e valorizar personalidades e iniciativas que contribuem significativamente para a cultura goiana. Batizado em homenagem ao jaburu, ave símbolo do Cerrado, o prêmio reflete a riqueza e a diversidade cultural da região, celebrando aqueles que dedicam suas vidas a preservar e promover as artes, a literatura, a música, o teatro e outras expressões culturais.
A premiação é organizada pela Secretaria de Estado de Cultura de Goiás (SECULT GO) e acontece anualmente, reunindo artistas, escritores, educadores e agentes culturais que se destacam em suas áreas. O foco do evento é não apenas premiar, mas também fortalecer a identidade cultural goiana, incentivando a produção local e destacando o papel da cultura como ferramenta de transformação social da sociedade goiana.
O Jaburu, assim como a Bibliolibras, é um símbolo de resistência e inclusão. Ele mostra que, mesmo em um mundo muitas vezes marcado por desigualdades, a cultura pode ser um espaço de acolhimento e celebração das diferenças. Para Sueli, receber essa distinção foi a confirmação de que sua luta por uma educação mais inclusiva e acessível não passou despercebida. “Foi como um abraço de Goiás, dizendo: ‘Você é nossa, e seu lugar é aqui,” diz com orgulho.
Mas para Sueli, o prêmio não é um ponto final, e sim um novo começo. “A Bibliolibras ainda tem muito a crescer. Quero que mais crianças tenham acesso, que mais histórias sejam adaptadas, que mais pessoas tenham acesso à nossa biblioteca”. O projeto segue avançando, com novas parcerias, livros e iniciativas que ampliam seu impacto. Afinal, a literatura não deve ter barreiras e sim magia, sonhos e acima de tudo asas, para quem nunca deveria crescer sem elas.
Sobre Sueli Maria Regino:
Nascida no Rio de Janeiro, Sueli mudou-se para Goiânia em 1986, onde se apaixonou pelo cerrado e pela cultura goiana. Autora de diversos livros infantis e juvenis, é doutora em Letras e Linguística pela UFG e dedica-se há mais de uma década ao ensino de Libras e à promoção da inclusão de surdos. Sua trajetória é marcada por uma paixão inabalável pela literatura e pela crença de que as histórias são asas que todos merecem ter.
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